segunda-feira, 17 de maio de 2010

Primeira crise

Inicio de 2005, meu avô tinha morrido há um ano, eu havia me formado há pouco tempo e estava morando em Salvador, meio que tentando me achar, retomar antigas amizades, ter tempo para pessoas importantes mas muita coisa tinha mudado. Decidida a mudar também, procurei uma equipe de médicos da Promédica (nutricionista, clinico geral e psicólogo) para tratar da compulsão alimentar que tinha gerado uma depressão porque eu não aceitava as mudanças do meu corpo e o que isso implicava socialmente. Ótimos médicos passaram meus primeiros remédios. Um tranqüilizante para diminuir a ansiedade e amenizar os impulsos alimentares e um antidepressivo por causa da minha tristeza que não passava nunca além do desanimo, eu não tinha vontade de sair para lugar algum, só saía para o trabalho.
No mesmo dia comprei os remédios, estava cheia de esperança, e um dia depois, há noite enquanto estava na casa dos meus pais, já de camisola para dormir, comecei a sentir uma dormência no braço esquerdo, depois um formigamento nas mãos, que logo foi passando para o corpo todo, uma queimação do lado esquerdo do peito...Concluí apavorada: Estou enfartando!
Não lembro como, mas meu pai disse que abri a porta, os portões e disse a ele que precisava de um hospital. Tenho plano de saúde mas tinha certeza de que não resistiria até chegar num hospital particular e acabamos indo ao local mais perto de casa , o Hospital Roberto Santos. Fiz meu pai correr muito porque realmente estava passando muito mal, tinha certeza que não sobreviveria. Nem sei como ele não bateu o carro de tanto nervosismo eu só piorava e chorava, pensei em meu avô e tive a nítida sensação de que o encontraria. Foram momentos de muito desespero. Entramos no hospital correndo lembro que o meu pai estava chorando e explicando que era o meu coração.
O médico me olhou rapidamente, me ouviu – lembro de ter pedido para que ele me fizesse uns exames, mas ele chamou a enfermeira e disse que deveria me aplicar uma dose de Diasepam, para quem não conhece, uma substancia forte, calmante, própria para controlar transtornos de ansiedade, e disse que eu não tinha nada, que tudo era psicológico. Alguém tem noção do que significa se sentir muito mal e o médico te olhar e dizer que é tudo psicológico? Eu não acreditei. Questionei o médico, ensaiei uma discussão mas cedi e aceitei tomar a injeção. O hospital ligou para a minha mãe a meu pedido já que na hora do desespero não esperamos que ela acabasse de se arrumar e a deixamos em casa sem entender nada fomos rápidos. Não sei quantos anos meu pai envelheceu com esse episódio, eu nunca me senti tão perto da morte, não sei o que minha mãe pensou durante os segundos em que o hospital ligou para ela antes que falassem que eu estava bem. Mas difícil seria contar as novidades a eles no dia seguinte.
O médico estava certo, era tudo psicológico, mas se engana quem pensa que isso torna os sintomas menos reais, eu senti TUDO, não inventei, não aumentei. Tive uma crise de pânico, e durante a consulta com a médica que vinha me acompanhando, Dr. Vânia, logo pela manhã, fiquei sabendo que tinha Síndrome do Pânico. O medo estava de volta a minha vida, fiquei fragilizada com a morte do meu avô mas minha reação só apareceu bem depois.
Comecei a comer para conter meus medos, engordei e adquiri uma compulsão alimentar por causa das dietas para emagrecer e me deprimi porque continuei engordando, com a morte do meu avô os medos voltaram. Tive que procurar ajuda psiquiátrica e para isso, vencer meus próprios preconceitos. Num consultório de psiquiatria, diferente do que eu imaginava, encontramos pessoas comuns como qualquer um que pode estar lendo esse meu texto agora e que por um ou outro motivo foi parar ali. Não são uma porção de loucos e sim gente que precisa de um médico que pode lhe receitar remédios para melhorar sua qualidade de vida. Claro que pensei de tudo, cheguei a me questionar, se estaria ficando louca. Não vou mentir que da uma sensação de ter chegado ao fim do túnel mas depois entendi que loucos ficam aqueles que não expõem seus problemas e não buscam ajuda, muitas vezes chegando cometer suicídio, tamanha a carga que carregam.
Mas eu sou alguém que ama viver, apesar de tudo e estou disposta a qualquer coisa para isso. Não que as vezes eu não caia e desanime. Mas em geral busco qualidade de vida, amor, felicidade e não tenho vergonha de falar sobre as minhas limitações, aliás, depois que resolvo um conflito dentro de mim, dane-se o que pensarem, eu sei do meu estado emocional e estou melhorando aos pouquinhos.
Meu atual psiquiatra é muito bem conceituado, o que me fez deixar o anterior, que era associado ao meu plano de saúde, e pagar suas caras consultas (não me arrependo). Ele disse que sou uma paciente muito interessante pela minha consciência, porque entendo tudo o que ele está falando e que qualquer médico adoraria me ter em seu consultório. Na verdade leio muito sobre os meus problemas, me meto no tratamento, dou sugestões, rimos muito durante cada consulta, choro também, muitas vezes...
A pouco, ele me disse que estou perto de parar com os remédios, que preciso, na verdade fazer análise porque sou uma pessoa com muitas questões a discutir, que provavelmente fui uma garota prodígio e tal, e que preciso deitar no divã de um analista para discutir sobre isso. Quase briguei, quando na última consulta me falou que daria o prazer de me acompanhar para uma amiga dele analista, sinto raiva porque eu falo dos meus problemas e ele age como se eu fosse um ratinho de laboratório. (rs) – Você funciona de maneira muito interessante- me diz, ou: - As pessoas devem adorar você! (risos). Ele é um querido faz tudo parecer simples e me faz achar que tudo vai dar certo, mas estou feliz em saber que em breve não precisarei mais das suas receitas azuis. Só preciso ter disciplina.
P. s. Parei muitas vezes de escrever esse post (4 vezes) porque me senti muito mal e sequer tenho coragem de relê-lo por enquanto. O Pânico foi e tem sido uma experiência muito traumatizante, não desejo isso para ninguém e me apavora a mera possibilidade de passar por esses eventos. Dá medo de ter medo. Hoje, sabendo que os sintomas são psicológicos eu fico mais tranqüila, já conheço melhor as minhas reações e posso controlá-las, tomar um remédio, me acalmar, mas ainda é difícil.

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