Madrugada do dia 18 de abril de 2010.
A obesidade é uma patologia crônica, o gordo é o doente, mas é acusado e apontado por ser o portador. O problema pode ser metabólico, genético, hormonal, psicológico (como no meu caso) ou de diversas outras ordens.
Como muitos que sofrem com o sobrepeso (conforme já contei aqui), eu passei a adolescencia fazendo dietas radicais e proibitivas, logo após a fase em que comecei a substituir o meu medo pela comida. O nosso organismo, no entanto, cria uma saída para compensar períodos em que passamos comendo muito pouco e como no meu caso esses períodos eram longos e freqüentes, o meu corpo passou a estimular de forma natural, a ingestão exagerada de alimentos para compensar as "abstinências". Em resumo, à grosso modo, ocorre um desequilíbrio bioquímico(relacionada aos neurotransmissores), relativamente comum em pessoas que vivem fazendo dietas loucas, que impede que a informação de saciedade chegue até o cérebro, ou seja, não sei a hora de parar. Parece simples? Não é! Tenho Compulsão Alimentar.
Sinto um impulso incontrolável e começo a comer até o desconforto, sem fome, mas sinto muita culpa e raiva de mim mesma durante e depois da crise, então me deprimo muito, porque a sensação é a de que estou me agredindo e é claro que isso me destrói. Apesar disso, o evento volta a ocorrer em poucos dias, a culpa e a depressão também. É uma espécie de ciclo que obviamente leva à obesidade mórbida, na maioria dos casos, e que destrói a auto-estima de qualquer mulher.
Então fico p. da vida se alguém diz, por exemplo, que estou acima do meu peso porque quero ou porque me acomodei, dá vontade de chamar a pessoa num cantinho e dizer o quanto ela é ignorante e o quanto sabe pouco sobre mim. Mas não pode ser assim, as coisas demoram muito a mudar, percebo despreparo ao tratar do assunto com os próprios médicos (alguns) então não tenho o direito de cobrar isso de alguém leigo no assunto, preciso ter paciência mas nunca vou me acostumar. Para a sociedade o gordo é alguém relapso com a saúde e está assim por escolha. Ou seja, além da doença a pessoa tem que carregar consigo um estigma e preconceitos em várias esferas.
Foi nesse contexto que há seis anos, por meio da internet, descobri que Salvador tinha um grupo de Comedores Compulsivos Anônimos que se reunia aos sábados pela manhã na Igreja de Santana do Rio Vermelho. Secretamente resolvi que iria à uma das reuniões. Chegando lá percebi que se tratava de um grupo sério e logo constatei semelhanças com os Alcoólicos Anônimos. Isso me deu um grande alívio porque eu sempre repetia que não me faltava força de vontade, mas que se tratava de uma dependência, um vício e lá encontrei pessoas que me entendiam, aquilo não era coisa da minha cabeça. Intuitivamente eu já havia me diagnosticado.
Durante a reunião do CCA (Comedores Compulsivos Anônimos) senti-me bem acolhida, eu não estava mais sozinha. Ouvi pessoas compartilharem coisas, contarem experiências que deram certo ou não e tudo que é conversado ali fica ali, não sabemos de onde cada pessoa veio mas sabemos que temos algo em comum. Ninguém é obrigado a falar, mas me senti tão a vontade que falei porque estava ali e contei um pouco da minha experiência com a comida. Percebi que vários presentes, balançavam a cabeça afirmativamente me dizendo que haviam passado por aquilo também e isso me trouxe conforto porque às vezes nos sentimos tão diferentes e estranhos no meio em que vivemos que é bom nos depararmos com “iguais”. Eu me senti uma pessoa comum.
Essa, porém, seria a minha primeira e última reunião. Isso porque, assim como no AA, o CCA tem por base do seu método (os passos dos alcoólicos) que cada indivíduo se apóie numa entidade superior e como não sou uma pessoa com uma espiritualidade definida, isso é muito confuso para mim (principalmente a época), então preferi me afastar, porque eu não acreditava nas coisas que lia, pensava em como iria conseguir continuar ali daquela forma e achei melhor sair. Decidi que procuraria ajuda médica, para cuidar da parte química e mais adiante pensaria numa terapia individual para resolver as questões psíquicas.
Mas eu realmente acho que o Grupo pode ajudar muita gente a se recuperar, a filosofia é muito interessante e apesar dos encontros ocorrerem numa igreja católica não existe nenhuma vinculação. A paróquia apenas cede um espaço físico, durante todo o encontro eles falam genericamente num ser superior e cada um direciona a quem acredita. Mas foi uma boa experiência, acho que hoje eu poderia voltar lá, mudei alguns dos meus conceitos, já não sou alguém cético como antes.
terça-feira, 11 de maio de 2010
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