terça-feira, 20 de abril de 2010

Vivendo com medo.

Tarde do dia 17 de abril de 2010


Sempre fui medrosa, desde que me lembro das coisas. Medo de ficar sozinha, medo do escuro, medo da noite, medo de dormir, medo, medo e medo. Sempre pedia pra dormir na cama com os meus pais, o que é aceitável quando se é muito pequena. Eu, no entanto, ainda fazia isso aos sete anos e tempos depois um deles era obrigado a ficar na minha cama até que eu adormecesse. Mas isso passou a não ser suficiente porque eu comecei a ter insônias e a me sentir ainda mais insegura, daí ia pra porta do quarto deles, batia e pedia para dormir lá, mas devido a minha idade e tentando agir de maneira pedagógica eles não deixavam e eu ficava ali sentada no chão por horas chorando e acabava indo pra cama de tão cansada ou pedia ao meu irmão, que é mais novo dois anos, que me deixasse dormir em sua cama ou que juntássemos as camas e isso já me fazia melhor.
Se estava num shopping, eu achava que poderia ocorrer um desabamento ou um escapamento de gás, qualquer barulho e meu coração disparava, eu queria ir embora, pedia aos adultos e lembro-me de ouvir criticas, do tipo: - você é muito mimada, não saio mais com você. Nos parques de diversões as outras crianças preocupadas em ir o máximo de vezes em cada brinquedo, enlouquecidas nas filas e eu observando as estruturas dos brinquedos, os cabos, os barulhos, achava que bem na minha vez algo daria errado, então fingia estar ansiosa pelo brinquedo, mas era medo de que uma tragédia acontecesse, às vezes chegava a suar frio. Já mais crescida, com uns 10 anos tomei pavor de avião. Achava que um iria cair bem em cima do meu prédio, então adquiri o costume de deixar o portão da minha casa aberto, pois tentava imaginar um plano de fuga caso percebesse que alguma aeronave ia cair. Nessa mesma época vivia atormentada com postes elétricos, não podia sentar perto de um ou debaixo de algum fio, não usava elevadores, pois a hipótese de ficar presa me deixava apavorada e me trazia a mente a sensação de estar num caixão viva. Enfim, eu tinha medo de ter medo, mas na época nem se falava em síndrome do pânico, e o que eu sei é que era uma menina muito atormentada cheia de fantasmas e que tinha certeza que com tantos riscos ao meu redor não viveria muito, talvez mais uns dois anos, quem sabe. Mas nunca imaginei que chegaria, por exemplo, aos 20 anos, quem dirá aos 30. Lembro-me de que a única coisa que eu pedia era pra ter certeza de que iria viver nem que fosse mais um dia inteiro, um mês, um ano ou dez, mas a certeza me faria relaxar porque eu vivia sob alerta, tensa.
Continua...

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