madrugada do dia 19 de abril de 2010
Desde muito pequena praticamente fui criada pelos meus avós, meus pais trabalhavam o dia todo, então era com eles que eu passava os meus dias, principalmente até os seis anos. Mas independente disso, os dois sempre foram muito presentes na minha vida, em todos os aspectos e anos mais tarde eu me mudaria de vez pra casa deles. Via no meu avô um homem forte, inteligente e eu o respeitava muito, conhecia a sua história e o admirava por saber de onde ele vinha e aonde chegou por meio de muito trabalho e um tanto de sorte também. Era capaz de fazer as brincadeiras mais bobas ou de falar forte com sua voz grave que podia dar medo, mas isso não me impedia de contra argumentar cada reclamação que ele me fazia então ele logo me apelidou de Dona polêmica, porque eu sempre tinha justificativas e respostas para tudo, segundo ele. Carinhosamente me chamava de moranguinha esmerenguebia (não sei de onde ele tirou esse) ou Luck.
Não era um homem de conversar muito, mas eu lembro bem das suas palavras antes da minha ida para a Feira de Santana (onde eu moraria por cinco anos) a primeira vez ele me disse muito sério: - Minha filha, não tem como você dar errado, siga o seu caminho e lembre: a única coisa que pode desviar uma moça são as drogas, homens ruins e fanatismo religioso (e realmente algumas dessas coisas passaram por mim). Engraçado, quando me propus a escrever sobre ele passou um filme na minha cabeça. Sei que ele fez por mim e por meu irmão muitas das coisas que ele gostaria de ter feito pelas filhas dele e não podia. Fazer horário durante horas na porta da nossa escola para nos levar de carro pra casa, vir de Periperi, onde morava, até Brotas, pra tirar a gente do castigo, obrigando a babá a desobedecer às ordens da nossa mãe. Dar-nos mimos, realizar tantos sonhos...
Bom, eu cursava o quarto ano de faculdade quando aconteceu a maior de todas as greves de professores já vistas na UEFS. Por isso vim pra Salvador, e foi nesse período, através de exames médicos, que descobrimos que meu avô, diabético (que andava muito cansado e com dores nas pernas) estava com as principais veias do coração entupidas. O cardiologista falou na ocasião, que era muito delicada a cirurgia e na idade do meu avô não era muito recomendável. Uma segunda opinião, porém, nos informou que debilitado como ele estava ele corria risco de vida operando ou não – apesar de ser um ex atleta profissional meu avô não agüentava dar poucas passadas sem que sua respiração ficasse ofegante e corria o risco de ter um infarto fulminante a qualquer momento.
Pela primeira vez na vida vi meu avô vulnerável e tentava imaginar o que ele estava pensando, porque eu estava com medo. Diante da gravidade do caso, como qualquer das opções era perigosa, o cirurgião resolveu apostar na operação. Afirmou que o coração dele era forte e prometeu a ele que ainda voltaria a jogar futebol como nos velhos tempos. Nós, da família confiamos e passamos a contar os dias para que a cirurgia acontecesse. Essa, no entanto, foi adiada várias vezes o que deu tempo para que meu avô passasse mais tempo conosco, inclusive as festas de fim de ano (quando tiramos sua última foto). Em fevereiro, tudo certo, internação ok, a cirurgia um sucesso, cheguei a fazer uma visita pela manhã e fiquei uns cinco minutos sozinha com ele na UTI. Era como olhar para um bebê, frágil e querer protegê-lo. Então eu pesei: vô, tá tudo bem, a gente vai te levar pra casa e vai cuidar de você, deu tudo certo! Depois só fiquei olhando pra ele e sorrindo, não quis falar porque ele estava entubado e dormindo e não me demorei mais, porque me deu vontade de tossir e fiquei com medo de prejudicá-lo com bactérias, sei lá. Durante a visita da tarde um atraso no horário, um paciente havia passado mal, minha tia desceu e viu: era ele, meu avô estava cercado de médicos, teve uma parada cardíaca, foi ressuscitado. Depois eu consegui entrar em contato com o médico dele que voltou ao hospital para refazer a cirurgia, mas o coração não suportou e rompeu.
Eu que já não era mais tão atormentada pelo medo da morte comprovei de fato que ela existia e naquele momento fiquei muito revoltada porque só conseguia vê-la como um evento negativo que tira as pessoas que a gente ama. Minha família ficou arrasada, o fizemos confiar numa cura que nunca viria, a casa ficou estranha, a mesa vazia. Passei a dormir no quarto em que ele dormia e durante muito tempo ainda sentia o cheiro dele lá. Guardo comigo um chapéu que ele costumava usar, a coisa mais feia do mundo, mas ele gostava.
Eu perdi uma referencia um pedaço não sei por que, mas me sentia meio perdida. Meses depois a greve acabou, me formei e comecei a trabalhar, agora éramos só eu e minha vó em casa (não posso esquecer de Regi com a gente). Quando tudo parecia estar voltando ao normal, tive minha primeira crise e fui diagnosticada com a síndrome do pânico. Segundo a minha médica na época, Dra. Vânia, o pânico foi a forma, ainda que tardia, que reagi a perda do meu avô. Nunca engordei tanto na minha vida, comecei a usar antidepressivos fazer terapia e outra coisas que conto depois, mas nunca mais fui a mesma.
02:20h
domingo, 25 de abril de 2010
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